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  • Luis Piccardi

Cuidado com a flexibilização:orientações sobre medidas de prevenção no ambiente de trabalho

Respostas de dúvidas de sobre o que fazer ao sair ou retornar para casa e ressaltam que o isolamento social ainda é a melhor medida.


Já se passaram mais de cinco meses de quarentena e, agora, as fases de flexibilização estão avançando cada vez mais em diversas cidades. Mas, a abertura do comércio, volta do trabalho presencial e até o funcionamento de bares ou outras opções de lazer não significam que a pandemia passou. O novo coronavírus ainda mata cerca de mil pessoas por dia só no Brasil, marcando família e amigos das mais de 120.000 vidas interrompidas até o momento.

Para que esse cenário não seja ainda pior, professores da Faculdade de Medicina orientam sobre as medidas de prevenção, respondendo algumas dúvidas da população. 


“A hora ainda é de muito cuidado e a primeira medida de precaução é sair só quando necessário. Então, quem pode não sair, é preferível que não saia. Sabemos que isso é complicado em dois níveis: para pessoas que tem casa, essa situação é ruim e cansativa; e há as pessoas em que essa situação é difícil até na questão da alimentação, de ter dinheiro para sobreviver…” Dirceu Greco, professor do Departamento de Clínica Médica e Emérito da UFMG

Ele ressalta que a pandemia tem escancarado as disparidades presentes na população e, pensando nas centenas de milhares de mortes, bem como nas famílias com integrantes que não podem deixar de sair de casa, a questão é “como mitigar o risco de contágio e disseminação do coronavírus”.


A flexibilização recente não é sinal de alegria, mas que estamos caminhando. Lembrando que um dos marcadores que tem sido utilizados pelo poder público para essa possibilidade são os leitos disponíveis, para onde vão pessoas que ficam muito doentes e consequentemente, com risco de morte. Então este marcador não permite visão abrangente de como está a pandemia, pois não leva em consideração o número de casos novos, por exemplo”, argumenta Greco.


Outro ponto importante para manter a precaução quanto a possíveis exposições ao novo coronavírus, segundo o professor, é que quanto mais tempo evolui a pandemia, mais qualificados os profissionais de saúde ficam para atender quem precisa dos cuidados mais intensivos. E a mortalidade tende a diminuir.


“Outra questão é que até o momento não há um medicamento que tenha se mostrado eficaz em estudos clínicos controlados para tratar a infecção pelo Sars-cov-2, a não ser dois usados já para a fase grave da doença (dexametasona e redemsivir). Assim, é mais uma razão para evitar exposição ao risco de infecção neste momento. Isso pode ser modificado quando houver acesso a tratamento farmacológico eficaz ou a vacina que se mostrar capaz de prevenir a infecção”, explica Dirceu Greco


A seguir estão alguns esclarecimentos de quatro especialistas da Faculdade sobre o uso da máscara, os cuidados pessoais ao sair e retornar para casa, com as compras e encomendas, em relação às crianças, a segurança trazida pelos testes, ao nível de exposição com a abertura do comércio e o papel de cada um no combate à pandemia.

Confira algumas dúvidas:


Com a reabertura do comércio o uso da máscara continua sendo obrigatório em todos os casos? Mesmo na hora da paquera ou quando for a bares?

A primeira questão é que se puder não sair, não saia. Se for preciso sair, a máscara é completamente imprescindível em qualquer lugar e situação. Lembrando que seu uso deve ser associado ao afastamento físico. Esses são meios de mitigar o risco de infecção pelo novo coronavírus. Não é porque está abrindo, que você precisa ir ao bar, por exemplo.

Uma atualização ruim sobre esse vírus é que achávamos que ao ser expelido com a saliva, tosse ou espirros, por exemplo, ele ficaria no ar por um tempo e cairia no chão. Mas, na verdade, é possível que ele fique por algum tempo suspenso no ar. Em locais fechados, principalmente, como elevador, esse risco pode ser maior. Por isso é preciso estar sempre de máscara. A entrada do vírus pelos olhos também é possível, mas ao proteger a boca e o nariz já estará mitigando o risco de infecção.


Para a atividade física na rua, devo continuar com a máscara mesmo que não tenha ninguém por perto? É seguro fazer essas atividades em espaços abertos?

O ideal é que a máscara seja usada sempre. Um trabalho alemão mostra que quando você está correndo, a faixa de risco em torno de uma pessoa possivelmente infectada é maior do que quando está andando. Então se for possível, prefira locais vazios, exercícios menos intensos para que a máscara não atrapalhe a respiração. Para retirar a máscara deve-se estar completamente isolado, em uma distância de outras pessoas de pelo menos mais de um metro e meio, como é comumente recomendado.


Devo solicitar à visita que use máscara durante o tempo que estiver em minha casa? É seguro conversamos usando máscara? Por quanto tempo?

melhor é adiarmos as visitas e mantermos o distanciamento físico. Muitas pessoas acham que está tudo bem não ir aos lugares, mas fazer um encontro com um grupo de amigos em casa. Se cada um ali tem contato com outro grupo, por exemplo, é bem possível que alguém esteja com o vírus, ainda que pareça assintomático.

Não se pode perder o medo da infecção por estar com a família. É preferível que fique de máscara, que a visita seja apenas de cortesia e se for possível que veja de longe, sem entrar ou que saia rapidamente. Lembrando ainda que a mortalidade aumenta conforme a idade, então cuidado com a pessoa que você pode estar expondo.

O tempo de permanência junto a uma pessoa infectada é fundamental em relação ao risco. A chance é pequena quando você só passa pela pessoa na rua, por exemplo. A partir de 10 a 15 minutos junto, o risco já aumenta.


Durante o dia, quando devemos trocar a máscara? Qual é o procedimento correto para trocar?

A máscara deve ser bem colocada, tampando o nariz e a boca. Deve ser trocada antes de ficar umedecida, já que neste caso ela perde sua capacidade de filtração. Ao ser trocada, deve-se tirar a máscara pelo elástico que prende a orelha, sem tocar na parte frontal. O descarte deve ser feito em local correto e, se for usar a máscara novamente, caso retire para alimentar, deve guardá-la em um local que não tenha risco de contaminação – como uma sacolinha exclusiva para esse uso -.

Antes e após o contato com a máscara, para tirar ou colocar, deve-se higienizar as mãos  com água e sabão ou álcool gel 70º.


Existe tipo de máscara mais efetivo na proteção, por exemplo, as de neoprene?

Existe materiais que filtram mais, como aquelas próprias de uso para profissionais de saúde. Essa variação entre os tipos de materiais podem ser de 50% a 90% na filtração e para saber qual é a eficácia de cada uma seria preciso avaliar individualmente. A neoprene é interessante sim, mas o mais importante é que a máscara seja funcional, bem adaptada ao rosto, cobrindo as partes por onde pode entrar ou sair o ar. As máscaras caseiras devem ser de folha dupla ou dupla camada de tecido.


Necessariamente tem que lavar todos os itens que chegam do supermercado?

Os cuidados de limpeza com as encomendas e compras do supermercado não são excesso de zelo, são ações para diminuir ainda mais os riscos de infecção, ainda que eles sejam pequenos por essa forma. O vírus é muito pouco resistente ao sabão e álcool em gel 70º e esse hábito vai ultrapassar a pandemia. É preciso que nos acostumemos. Esse é um dos legados da pandemia e é importante por evitar outras possíveis infecções de disseminação semelhante.

Se for possível, utilize a mistura de água sanitária bem diluída, principalmente na limpeza de verduras. Itens que forem fechados devem ser lavados com água e sabão. Já com as encomendas recebidas, deve-se tirar o conteúdo de dentro, limpá-lo com álcool gel ou água e sabão antes de colocá-lo na mesa, e limpar também as mãos. O restante do pacote deve ser desprezado ou guardado em um lugar próprio para ser usado posteriormente.

Ainda que não haja um consenso do tempo de viabilidade do vírus em cada material, sabe-se que ele permanece menos tempo no papel. Como é complicado lavar as sacolinhas de plástico, seria melhor tentar usar menos esse material e preferir aquelas sacolas retornáveis que são mais fáceis de limpar. Caso use as sacolinhas de plástico, despreze-as após ou deixe-as em um lugar exposto no sol, como uma espécie de “castigo” por pelo menos 24h.


Quais são os cuidados ao chegar em casa? É necessário tirar o sapato antes de entrar e a roupa que usa para sair tem que ser lavada imediatamente ou pode voltar a usá-la? Colocar no sol é uma medida eficaz?

Pensando no risco zero, o melhor seria não sair de casa e não ter contato com nenhuma pessoa infectada. Esse risco vai crescendo conforme as situações. O principal e mais comum é o espalhamento pelas vias aéreas, como tosse e espirro. Mas sabe-se que o vírus também pode ficar na roupa. Assim, após tocá-la e levar a mão à boca, ao nariz ou aos olhos, há risco de infecção.

Então, ao retornar para casa é preferível que a roupa usada seja colocada para lavar. Se não for possível, que ela pelo menos fique exposta em um lugar ventilado e ao sol, diminuindo o tempo de sobrevida do vírus que pode estar localizado ali. Também é recomendado não entrar com os sapatos em casa. Mas tudo isso se trata de riscos pequenos, que podem ser cumulativos.


Temos que sair de casa com cabelo preso?

O cabelo em si não é um problema. A questão é que o cabelo longo pode incomodar, a pessoa querer ficar ajeitando-o e isso faz com que a mão chegue perto da boca, narinas ou olhos.


Quais cuidados devemos tomar no transporte público?

Sabemos que a população mais vulnerável se locomove com o transporte coletivo que muitas vezes está lotado. Essa aglomeração acontece até antes de entrar, na formação da fila de espera. Então se for possível, mantenha a distância também enquanto aguarda.

Ainda que o comércio siga as normas de oferecer álcool gel, respeitar distanciamento e número máximo de pessoas no ambiente, não dá para esquecer como as pessoas vão chegar até esses locais de lazer ou de trabalho. Muitas vão usar o transporte coletivo. Essa é uma discussão que inclui a questão do direito. Por isso deve haver melhoria do transporte coletivo, aumentar o número de ônibus e diminuir o número de pessoas que vão entrar nele.

E, claro, para mitigar os riscos, já que não tem como não segurar nas barras, deve-se lavar as mãos assim que chegar no destino ou usar álcool em gel ao descer. A máscara deve ser usada o tempo todo e em todo lugar.


As crianças são menos vulneráveis que os adultos?

As crianças não são nem menos e nem mais vulneráveis do que os adultos. Elas podem se infectar e transmitir o vírus da mesma forma. A diferença é que quando elas se infectam, geralmente tem manifestações leves da doença. Mas, em relação a infecção e a transmissão do vírus, o risco é o mesmo.  


É necessário que elas brinquem de máscaras mesmo se for um espaço só pra elas?

Se elas não usarem máscara enquanto estiverem brincando, elas estão expostas à infecção e podem pegar o vírus das outras crianças. Então, estar com crianças ou adultos, sem usar máscara, há risco de contrair o vírus. Por isso, é aconselhável que brinquem sim de máscara, sempre que tiverem contato com outras pessoas de qualquer idade.  Os cuidados de higiene,como lavar as mãos, também devem ser seguidos pelas crianças.


Para crianças de até 3 anos, não é recomendado que usem máscara. Quais cuidados devemos ter para compensar?

As máscaras não são recomendadas para crianças menores de 3 anos devido à intolerância ou dificuldade de manejo e de respirar. Então, nessa idade, é preciso manter um distanciamento de 2 metros e evitar contato prolongado com as pessoas por mais de 15 minutos. As outras medidas de prevenção e o distanciamento social devem ser reforçadas para essas crianças que não podem utilizar a máscara. 


Há algum protocolo para reabertura das escolas de Ensino Fundamental? É aconselhável levar o filho pequeno para a escola antes de ter uma vacina? Quais são os cuidados que as crianças devem ter?

Isso depende do Comitê de Enfrentamento à Epidemia da Covid-19 que orienta sobre os protocolos de abertura. Essa ordem de reabertura, como as escolas, é de acordo com a queda na ocupação dos leitos de enfermarias e UTIs, além da redução da transmissão do vírus. 

Sobre permitir ou não que o filho volte para a escola, é uma questão pessoal. Precisamos considerar também a socialização da criança, que está sendo muito prejudicada com o isolamento. Então, levá-la para a escola sem que tenhamos a vacina há o risco inerente da criança se infectar, mas, por outro lado, ela ganha muito com o convívio com colegas e professores. 

Ao retornar, os cuidados de manter o distanciamento social, uso de máscaras ou da face shield e higiene das mãos devem ser orientados na escola, levando em conta que as crianças estarão aglomeradas. Então as escolas devem criar oportunidades para que as salas estejam menos cheias e que as aulas sejam, na medida do possível, ao ar livre ou onde houver maior circulação de ar. Além disso, é importante que as crianças doentes ou com sintoma gripal não frequentem as escolas. 


Adultos conseguem aprender e adaptar mais facilmente com os novos hábitos de higiene para prevenção da covid-19. Mas como fazer com que as crianças também aprendam?

Dependendo da idade da criança, é possível que assimilem bem. São hábitos que ficarão por muito tempo ou pelo resto da vida, pois estamos reforçando os nossos cuidados de higiene com essa pandemia. E eles são importantes para a prevenção não só da covid-19, mas também da influenza, outros quadros gripais ou vírus respiratórios, que às vezes podem ser graves, principalmente em crianças.

Então, é importante que esses cuidados sejam assimilados de acordo com a idade. As crianças menores devem ser mais vigiadas, já que elas não têm essa consciência ainda, por exemplo, de evitar a troca de objetos e brinquedos. São algumas medidas que podemos instituir nas escolas para tentar reduzir essa transmissão e a vigilância das crianças pequenas é muito importante para que elas se adaptem ao “novo normal”. 


Os hábitos de higiene e uso de máscara são efetivos, tendo em vista as aglomerações por conta do comércio? Como nos mantermos seguros?

O uso de máscara e os hábitos de higiene minimizam mas não anulam o risco da transmissão pelo coronavírus. A única forma de anulá-lo é com um estrito isolamento social, ou seja, uma pessoa infectada não encontrar com outra saudável. 

A máscara oferece uma barreira que diminui a eliminação de partículas respiratórias que contenham o vírus. Os hábitos de higiene, como lavar as mãos e o uso de álcool em gel, diminui o risco das mãos serem o veículo de transmissão. Na medida em que tiver proximidade das pessoas, o risco volta a existir. E para diminuí-lo, é necessário que em espaços fechados, principalmente, seja respeitado o limite máximo de pessoas no seu interior e a distância de dois metros entre elas. O amplo fornecimento de álcool em gel e a utilização pessoal dele com frequência vai diminuir a propagação do vírus a partir das mãos e a contaminação da própria pessoa. 

O mais importante, além dos cuidados pessoais, é evitar aglomeração e manter os ambientes bem iluminados e ventilados. 


Ao sair de casa, posso encostar nas pessoas, para abraçar, por exemplo, e nas coisas, como mercadorias?

Não devemos abraçar, encostar e beijar as pessoas, mesmo que estejamos com as mãos higienizadas, pois a transmissão acontece principalmente por vias respiratórias, pela eliminação de partículas contendo o vírus. E isso se dá quanto mais próximo as pessoas estiverem, o que deve ser evitado. 

Então, é recomendado cumprimentar de longe, ser cordial e afetuoso na medida do possível, sem o contato físico, porque isso minimiza o risco de transmissão entre as pessoas nessas interações. É preciso que se mantenha o distanciamento entre as pessoas de 1 a 2 metros, com o uso de máscara, mantendo sempre a higiene das mãos, para, mesmo flexibilizando, tentar reduzir a curva da epidemia, que ainda não está em diminuição. 


Em relação ao grau de exposição, a recomendação continua sendo ficar em casa o máximo possível ou algumas atividades fora são seguras?

A recomendação continua ficar em casa o máximo possível. As atividades do comércio devem ser buscadas na medida da necessidade. É importante o isolamento, pois a menor circulação de pessoas no transporte coletivo, em pontos comerciais e de lazer diminui o risco de transmissão em taxas elevadas. Claro que, dentro de uma perspectiva ampliada de saúde, precisamos de um refresco mental, como sair, fazer caminhada, praticar atividades de lazer, mas respeitando o distanciamento social.

Mesmo que os estabelecimentos voltem a funcionar, devemos priorizar atividades em ambientes abertos, com distanciamento social, sempre usando máscara e com a higiene frequente das mãos. É recomendado também evitar o contato e a proximidade quando interagir, porque essa socialização entre as pessoas é inevitável, ao pegar um produto ou conversar, por exemplo. 


Em relação a encontros de família, que mora em casa separada, ou de amigos, é liberado para este momento? É preciso manter o distanciamento e usar máscara mesmo com poucas pessoas?

Também deve ser evitado, principalmente entre pessoas que não estão compartilhando os mesmos ambientes de convívio domiciliar e trabalho, pois vai aglomerar pessoas que estão tendo exposições diferentes, com locais diferentes, ou vai expor pessoas que estão restritas ao lar, principalmente idosos e pessoas portadores de doenças crônicas. Se estamos circulando e temos convívio com essas pessoas, o risco existe. 

Mas com o distanciamento por meses de amigos e familiares, as pessoas tendem a voltar a se encontrar. É preciso que esses encontros eventuais sejam de curta duração, em ambientes ventilados, com o menor número possível de pessoas, que continuem usando máscaras e evitem o contato, como aperto de mão, abraço, beijo, mesmo que as mãos estejam higienizadas e mesmo que esteja de roupa limpa. Isso porque a transmissão está muito ligada às partículas respiratórias que nós eliminamos ao espirrar, tossir ou falar. Então esse momento de proximidade tem risco de que a transmissão aconteça na interação.

E isso é partindo do princípio de que a pessoa com sintomas não vá a um encontro desses. Quando a pessoa tem qualquer suspeita, como febre, tosse, falta de ar ou qualquer outro sintoma respiratório, é preciso que fique em casa, tente fazer o exame para ser adequadamente diagnosticada e mantenha o isolamento no tempo necessário de pelo menos 10 dias, em geral de 14 dias, até que os sintomas desapareçam por pelo menos três dias.


É possível apontar as atividades com maior e menor risco?

As atividades que são exercidas em ambientes fechados, em que há maior proximidade e interação das pessoas, têm maior risco de transmissão, ao contrário das realizadas em lugares abertos e com menos aproximação. Por exemplo, correr em uma praça ao ar livre tem menos risco do que fazer spinning em uma sala fechada com ar condicionado e com outras 20 pessoas, mesmo que, em ambas, todos estejam usando máscara. 

Quanto mais arejado, ventilado e iluminado for o ambiente, menos riscos. Isso também vale para outras atividades, como o comércio. Uma feira ao ar livre tem menos risco de transmissão do que um supermercado fechado, com ar refrigerado. É importante dimensionar um número máximo de pessoas, para que o distanciamento social seja respeitado. Independente das atividades, é preciso que tomemos medidas para minimizar a contaminação.


Alguns lugares têm feito testagem para possibilitar a realização de shows, festas ou a volta para o trabalho presencial. O resultado do teste, seja o negativo para covid-19 ou o positivo para a presença do anticorpo, pode dar carta branca para convivência social?

Quando é feito o teste rápido, ou sorológico, é possível detectar apenas os anticorpos, mostrando se a pessoa já teve a infecção em um período recente ou há mais tempo. Não quer dizer que ela não esteja mais transmitindo o vírus. Pelo que se sabe, é improvável que ela pegue a infecção novamente. Então, no caso dos teste rápidos, eles até ofereceriam alguma segurança se o evento fosse realizado para as pessoas que têm esse teste positivo e que não tenham mais sintomas. Mas, mesmo assim, há uma janela de possibilidades, de que as pessoas, por exemplo, tenham contraído a infecção há pouco tempo, já tenham produzido anticorpos e possam ainda estar na fase final da doença, com ou sem sintoma, e transmitindo o vírus. 

Geralmente, é utilizado o resultado negativo do teste para liberar a entrada para a realização dos eventos, o que é um grande perigo, pois até o 8º ou 10º dia da doença, em que pode estar com pouco ou nenhum sintoma, a pessoa infectada pode estar transmitindo e ainda não ter tido produção de anticorpos para mostrar a positividade no teste rápido, ou seja, é um falso negativo. Então estabelecer eventos com base no teste sorológico não é o correto. 

Para os eventos esportivos, tem se usado periodicamente o swab nasal, que é o exame de PCR. Esse sim detecta a presença ativa do vírus com transmissibilidade naquele momento. E um PCR negativo torna muito improvável que a pessoa esteja com o vírus e com capacidade de transmiti-lo. Mas ainda há uma pequena margem de falso negativo, mesmo nesse exame. 

Então o ideal é que em eventos que impliquem risco de transmissão das pessoas, como os eventos esportivos, shows e outros encontros é que seja realizado o teste PCR, um ou dois dias antes, no máximo, porque é um exame que demora horas ou dias para ficar pronto. Devido a isso, nada impede que a pessoa com exame negativo, feito dias atrás, tenha se infectado depois da realização do teste. Então é uma forma de diminuir o risco, mas de maneira alguma o elimina. 

Nesse momento, eventos que tem aglomeração de pessoas não deveriam acontecer, até que se tenha um controle efetivo da epidemia. O nosso RT, a taxa de transmissão, está próximo de 1. Isso significa que cada pessoa infectada está transmitindo para uma outra. Então nós não estamos em uma fase de aceleração da epidemia, mas também não estamos em uma fase de desaceleração. 


Esse é o momento ideal para a abertura, sendo que ultrapassamos a marca de 100 mil mortes no país e a quantidade de mortos/infectados só aumenta?

Para entendermos, temos que analisar a epidemia no Brasil regionalizada. Tem várias epidemias acontecendo no país. Claro que estamos em uma fase muito ruim, com mais de 30 mil casos diários e com cerca de mil mortes diárias, há mais de dois meses. Então realmente temos que tentar analisar regionalizadamente.

Em relação a Minas Gerais, por exemplo, a gente não tem certeza se começamos a descer esse platô. Portanto, não é momento de flexibilizar. Já Belo Horizonte sim, a curva é bem interessante. A gente percebe que atingimos o platô na semana do dia 26 de julho, na semana epidemiológica. Ficamos por poucas semanas e começamos a descer. É muito visível essa queda de número de casos de síndrome respiratória aguda grave e também de notificação. 

No entanto, temos um quantitativo de casos que nos preocupa. Em Belo Horizonte, são em torno de 28 a 30 casos por 100 mil habitantes/dia. Isso é muito ainda. Temos que reduzir esse número para menos de 5 casos por 100 mil habitantes.

Já começamos a flexibilizar em algumas situações em Belo Horizonte, desde o dia 6 de agosto, e percebemos que a ocupação de leitos continua caindo, tanto de CTI quanto de enfermaria. Além disso, o R0, a taxa de transmissão da doença, estava torno de 0,88, o que é muito bom. Infelizmente tem subido e atualmente está em torno de 1, o que não é muito bom. Então, algumas atividades devem ser mantidas fechadas, como é o caso de bares, cinemas, teatros e, infelizmente, também não é o momento de retornar às escolas.


Quais são as medidas que estão ou deveriam ser tomadas para fazer com que o fim do isolamento seja o menos danoso possível?

Uma primeira questão que se coloca é que todos os países que enfrentaram essa primeira onda, como os países asiáticos, ao passarem dessa primeira fase de enfrentamento, começaram a ampliar a testagem, detectar e  isolar os casos. Então uma medida que seria fundamental para enfrentarmos essa pandemia, nessa segunda fase, vamos dizer assim, seria ampliar a testagem e ir atrás de contatos. Isso é primordial para evitarmos novos lockdowns, novos isolamentos. 

Se começa a flexibilizar no momento certo, com R0 baixo, transmissão baixa e ampliar a testagem, além de ir atrás dos contatos, aí sim vamos continuar ampliando a flexibilização das atividades, seja a volta das escolas ou, eventualmente, os bares. Ou seja, para flexibilizar de forma mais segura temos que melhorar muito a vigilância epidemiológica, uma dificuldade que temos, por diversos motivos. 

Tem sido assim na Inglaterra, na Alemanha, na China. Cito o exemplo desses países, porque em Londres, por exemplo, fizeram o isolamento pontual na cidade. Em uma região que produz carne na Alemanha foi detectado um surto, eles a fecharam e agora já flexibilizaram. Em Pequim, há mais tempo, detectaram um pequeno surto em um bairro de 500 mil pessoas, fecharam e o isolaram, sem precisar fazer mais o lockdown e controlaram o surto. 

Além de termos que melhorar nossa vigilância, ampliar nossa testagem e ir atrás de contatos, é preciso da mudança de comportamento da população. Por isso, também é importante a pesquisa das Ciências Sociais, para entender porque que as pessoas aderiram ou não as medidas preconizadas, as sanitárias, de distanciamento social, uso de máscaras e de evitar aglomerações. Essas medidas são fundamentais para ampliar a nossa flexibilização.



Com a reabertura do comércio, se os casos aumentarem corre o risco de lockdown?

Sim, a prefeitura tem esse compromisso quando começa a flexibilizar. Se os casos começarem a aumentar de forma preocupante, podemos voltar à fase zero. Por isso a importância de insistir que a população perenize, ou seja, que essas mudanças de comportamento sejam duradouras, como o uso de máscara, evitar aglomerações e esperar esvaziar se algum comércio tiver muita gente no ambiente fechado. 

A transmissão do vírus se dá facilmente em ambientes fechados e quando há muitas pessoas dentro do local. Por isso a importância de se evitar aglomerações, manter o distanciamento social, o uso de máscara e a higienização das mãos.



Dirceu Greco lembra que os cuidados de prevenção ao coronavírus deverão permanecer por muito tempo. Sobre a vacina, ele diz que, considerando a sua descoberta, compra, produção e distribuição, ela ainda vai demorar um pouco. “Sendo muito otimista, poderá estar disponível no primeiro trimestre de 2021”. 

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